Ana Vaz · É Noite na América

04.07.2022 19:30 — 07.10.2022 19:00
Escola das Artes | Sala de Exposições

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04.07.2022 19:30 07.10.2022 19:00 Ana Vaz · É Noite na América Link: https:///pt/central-eventos/ana-vaz-e-noite-na-america

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Universidade Católica Portuguesa - Porto | Sala de Exposições

Exposição
É Noite na América

Ana Vaz

4 JUL – 7 OUT 2022
Sala de exposições da EA

 

Inauguração: 4 JUL · 19H30
A inauguração da exposição integra o Programa Público da Porto Summer School on Art & Cinema 2022.

 

Curadoria: Daniel Ribas

Um Jardim na Cidade
(sobre É Noite na América

Por Daniel Ribas

 
Olhamos um horizonte: estamos no planalto que acolhe Brasília, a cidade utopia construída para ser a capital do Brasil moderno. As imagens são impactantes, de uma beleza quase escultórica: como se uma cidade tivesse sido modelada aos poucos, pelas mãos de um super-homem. Esta modernidade faz parte de uma história e de um imaginário de um futuro nunca atingido, de um projeto de nação nunca cumprido. Desse projeto, o que resta é uma história de vencedores. Uma história que oculta a memória de esquecidos e precários; uma história de poder das elites sobre um povo em nome do qual se erigia uma cidade. Aliás, a ideia de cidade é um dos pontos de partida para esta história de ecoterror: o confronto impossível entre uma existência prévia e aquilo que a cidade arrasa.
 
Estruturada em três ecrãs que envolvem o visitante, É Noite na América, de Ana Vaz, promete uma aventura onde esta cidade – tão cara ao trabalho da cineasta – se confronta com uma vida alternativa, aquela que está além do bulício quotidiano. Uma vida de animais em cativeiro, animais que são “resgatados” da sua imprudente entrada na cidade. A exposição instala-nos, à partida, num espaço de estranheza, que se repete diversas vezes: a de sons estranhos, alienígenas, convocando referências dos filmes de terror para “assustar” o visitante. Estamos num espaço que nos retira do familiar, do quotidiano citadino. Sons de tachos remetem também para um espaço político – o do barulho contra um governo da cidade (Brasília como capital) e contra os espaços de violência por ele construídos. Sons que remetem para a distopia política, atual e histórica.
 
Partimos dessa distopia em direção à noite, no limite da visibilidade, jogando com a sensibilidade à luz (ou a falta dela) da película fora de validade que Ana Vaz utiliza. Este lado físico – constituído por materiais já desprezados – reforça a vontade de colocar o visitante num espaço liminal, que é um espaço de dúvidas e contradições, mas também um espaço de abertura para qualquer coisa de novo: de um porvir da natureza e da sua existência. A película fora de prazo reforça a taciturnidade que a cidade nos impõe: com as suas luzes vagas, os vermelhos estridentes dos carros, a chuva torrencial – com as suas tempestades e trovoadas –, e uma sensação de entrarmos num filme policial. A câmara (numa inquietação vigilante) parece procurar algum indício no meio do quotidiano febril do princípio da noite (o momento em que, pela falta de visibilidade, somos obrigados a encarar o desconhecido). É uma câmara que às vezes também segue pela estrada fora, qual road movie, parecendo deambular sem parar. O que procura esta câmara? A cidade labirinto abre-se para nós: uma cidade-betão, uma cidade-carro, que violenta a escala humana, como antes violentara todos aqueles que fizeram parte da sua história de construção.
 
Nesta visão desoladora, somos surpreendidos pelos animais, que “imprudentemente” invadem a cidade. Vemo-los vagueando pelas estradas ou então já “resgatados”, vivendo no Jardim Zoológico de Brasília. As imagens destes animais são impressivas: como se pressentíssemos a tristeza nos seus olhos, uma inquietação que perpassa também um certo desespero, um desencaixe entre eles e a cidade-utopia. São imagens de ausência de afeto: eles estão sempre cercados de grades ou aparelhos protetores. Os homens que os salvam ou deles tratam estão sempre “protegidos”; alguns deles parecem quase militares, e essa aparência demonstra subtilmente a guerra sobre a qual as imagens nos colocam. Uma guerra surda, minimal, onde está claro quem são os vencedores.
 
Há uma sugestão, em todo o caso, de uma espécie de golpe – e é aí que É Noite na América se desloca, se transforma: nas imagens impressionantes, gigantes, de uma coruja, que enfrenta diretamente a câmara, desafiando o visitante e o seu olhar. O dispositivo instalativo cerca, nesse momento, esse visitante, não o deixa fugir desse golpe recriminatório. Regressa aí, a trilha sonora de Guilherme Vaz, que várias vezes pontua o filme. É uma trilha intensa, misteriosa, impositiva, tal como o olhar da coruja nos interpela.
 
Intermitentemente, a instalação é separada por regulares ecrãs azuis, ao mesmo tempo que a cidade é filmada no limite do lusco-fusco. A noite americana (técnica de cinema que permite gravar de dia parecendo ser noite) é transformada na noite da América, um distópico filme sobre o abismo da cidade-utopia no vazio da contemporaneidade. O que restará depois do fim do mundo?
 
 
É Noite na América é uma comissão e produção da Fondazione in Between Art Film e co-produzido pela Pivô Arte e Pesquisa e Spectre Productions
 

 

TER – SEX · 14H00 – 19H00

Sala de Exposições da Escola das Artes
ENTRADA LIVRE

 


BIOGRAFIAS
 
ANA VAZ
Ana Vaz nasceu no planalto central brasileiro habitada pelos fantasmas enterrados pela capital federal modernista Brasília. Cerratense de origem e andarilha por escolha, Ana viveu nas terras áridas do Brasil central e do sul da Austrália, nos pântanos do norte Francês e nas margens orientais do Atlântico norte em Portugal. Atualmente traça a sua caminhada entre Paris e Brasília. Sua filmografia ativa e questiona o cinema enquanto arte do (in)visível e como instrumento capaz de desumanizar o humano, expandindo suas conexões e devires com outras formas de vida — tanto outras-que-humanas, quanto espectrais. Consequências ou expansões da sua cinemato-grafia, suas atividades se incorporam também na escrita, na pedagogia crítica, em instalações ou caminhadas coletivas.
 
Os seu filmes foram apresentados e discutidos em festivais de cinema, seminários e instituições tais como a Tate Modern, Palais de Tokyo, Jeu de Paume, Berlinale Forum Expanded, New York Film Festival, TIFF Wavelengths, Cinéma du Réel, Courtisane, entre outros. Exposições recentes do seu trabalho incluem: "Penumbra" exposição coletiva no Complesso dell'Ospedaletto (Veneza), "É Noite na América" exposição individual no Jeu de Paume (Paris), "Os filmes de Ana Vaz" exposição individual no Dazibao (Montréal), 36º Panorama de Arte Brasileira “Sertão” exposição coletiva no MAM (São Paulo), “Meta-Arquivo 1964-1985: Espaço de Escuta e Leitura de Histórias da Ditadura” exposição coletiva no Sesc-Belenzinho (São Paulo) e "Profundidad de Campo" exposição individual no Matadero (Madrid). Em 2015, recebeu o Kazuko Trust Award concedido pela Film Society of Lincoln Center em reconhecimento da excelência artística e da inovação do seu trabalho em imagem em movimento. Em 2019, recebeu o apoio do Sundance Documentary Film Fund para completar o seu primeiro longa-metragem.
 
Ana é também integrante e fundadora do coletivo COYOTE, juntamente com Tristan Bera, Nuno da Luz, Elida Hoëg e Clémence Seurat, um grupo interdisciplinar que trabalha nos campos da ecologia e ciência política através de formas experimentais (conversas, derivas, publicações, eventos e performances).
 
 
DANIEL RIBAS
Daniel Ribas é investigador, programador e crítico de cinema. É Professor Auxiliar na Escola de Artes da Universidade Católica Portuguesa, onde coordena a Licenciatura e o Mestrado em Cinema. É vice-diretor do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes. É doutorado em Estudos Culturais pelas Universidades de Aveiro e do Minho; e licenciado em Som e Imagem pela Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa. Mantém uma atividade de curador de cinema e é programador do Curtas Vila do Conde. Neste contexto, foi membro da Direção Artística do Porto/Post/Doc entre 2016 e 2018. Colabora regularmente com o PÚBLICO e é jurado do Instituto de Cinema e Audiovisual desde 2018.

 
Organização
 
Este projeto é financiado por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do projecto Ref.ª UID/00622/2020.
 
 
 
 
Apoios
Câmara Municipal do Porto (Programa de Apoio à Programação Artística CRIATÓRIO)